TRADIÇÃO RELIGIOSA

 

«Para a maior parte dos europeus, “religião” significa uma relação fixa entre o homem e uma entidade não humana, o Sagrado, o Sobrenatural, a própria Existência, o Absoluto, ou simplesmente “Deus”. Contudo, a partir do Suez para Oriente, tal relação parece frequentemente ser considerada indescritível, ou descritível em termos de movimento como um “Caminho”. Assim, temos o “hodos”, ou caminho, dos Fariseus. A Cristandade primitiva no Livro dos Actos é chamada “Esse Caminho”; o Budismo é descrito como “os oito caminhos nobres”; e a religião nacionalista japonesa (se se pode usar este rótulo europeu) é chamada Shinto, “o Caminho dos Deuses”; enquanto a Rússia comunista, fiel à sua descendência semi-oriental, rejeitou o Teísmo ou antes, o termo europeu “religião” a favor da rendição ao “Processo Dialéctico”- o que é, uma vez mais, um “Caminho”; também a mensagem de Confúcio é por ele chamada “O Caminho”.»(1)

«Enquanto o Ocidente acentua a encarnação humana, e ainda a personalidade e historicidade de Cristo, o Oriente diz: “Sem princípio, sem fim, sem passado, sem futuro”. De acordo com a sua crença, o Cristão subordina-se a uma pessoa superior e divina esperando obter a Sua graça; mas o oriental sabe que a redenção depende do “trabalho” que o indivíduo fizer sobre si mesmo. O Tao cresce a partir do indivíduo. A imitação de Cristo tem esta desvantagem: com o correr dos tempos adora-se como divino exemplo um homem que encarnou o mais profundo significado da vida e então, empenhados numa perfeita imitação, esquecemo-nos de tornar real o nosso desígnio mais profundo - a auto-realização. Tivesse Jesus feito isso e Ele teria sido provavelmente um respeitável carpinteiro e não o “rebelde” religioso que foi.

A imitação de Cristo deveria ser entendida de uma maneira mais profunda. Devia ser tomada como o dever de tornar reais as nossas convicções mais profundas, com a mesma coragem e o mesmo espírito de auto-sacrifício revelado por Jesus. Deste modo, a pessoa de Jesus, situada fora no reino da história, poder-se-ia tornar para o homem contemporâneo o homem superior que existe dentro de si próprio, o que lhe permitiria alcançar, à maneira europeia, o estado psicológico correspondente à “iluminação” no sentido oriental.»(2)

1 - A .C. Bouquet , 'Comparative Religion'
2 - The Secret of the Golden Flower (A Chinese Book of Life)

 

Tradições religiosas:

 

Hinduísmo

«O Hinduísmo, ao contrário do Cristianismo, Islamismo ou Budismo não teve nenhum fundador. Foi crescendo por um período de mais de 5.000 anos, absorvendo e assimilando todos os movimentos religiosos e culturais da Índia.(1)

Não se pode dizer que o Hinduísmo seja uma filosofia ou religião bem definida. É, antes, um complexo e vasto organismo socio-religioso formado por inúmeras seitas, cultos e sistemas filosóficos, envolvendo vários ritos, cerimónias e disciplinas espirituais, bem assim como a adoração de incontáveis deuses e deusas.(2)

Conforme aparece nos Vedas, a religião dos Arianos (o povo que invadiu a Índia no segundo milénio antes de Cristo e falava uma língua da qual deriva o sânscrito tal como hoje o conhecemos) era essencialmente politeísta e a mitologia védica parece revelar alguma similitude com a sua réplica europeia.

No Upanishads (c. 800 A.C) a doutrina está centrada à volta de Brahaman e Atman. Por Brahaman quer-se dizer o “Deus que tudo penetra”, enquanto o outro termo, Atman, quer dizer “Ego”. O Upanishads aponta que Brahaman e Atman são o mesmo e ensina ao estudante de religião “Tu és Isso” (Tat tvam asi).

No Bhagavad - Gita , composto alguns séculos depois do Upanishads (cerca de 500 A. C.) são discutidos os deveres do homem no mundo. A indestrutibilidade da alma é reivindicada, o trabalho altruísta é apresentado como um ideal e os deveres de todo o ser humano são realçados. É neste período (entre 800 e 500 A .C.) que são lançadas as principais fundações do Hinduísmo moderno, o politeísmo dá lugar ao monoteísmo, surge claramente um código moral de conduta e as futuras tendências da religião são amplamente definidas.

Entretanto surgem o Jaísmo e o Budismo, desenvolvendo ambos os Ideais Hindus de renúncia e do amor, usando a metafísica de documentos Hindus nos quais é dada ênfase às três maneiras de se alcançar Deus: Conhecimento (jnãna), Acção (karma) e Devoção (bhakti). Na última parte do primeiro milénio D.C. a ideia de “avatãra” (encarnação Divina) desenvolve-se e isso ajuda a devoção (bhakti), uma vez que é muito mais fácil para o homem amar um Deus pessoal do que o abstracto e todo penetrante Deus dos Upanishads. O movimento Bhakti está muitas vezes centrado em volta da encarnação (avatãras) como Krishna ou Rãma, embora por vezes se tenha baseado também na devoção a um Deus não encarnado. No entanto, mesmo no último caso, é atribuída uma forma Ao que não tem forma, sendo adorado sob a forma, digamos, de Vishnu, Siva ou Kali. Este movimento floresceu particularmente na Idade Média e foi reforçado pela tradição muçulmana chamada Sufi.

Na época moderna, em parte como reacção à actividade missionária cristã, o interesse popular pelos antigos documentos hindus, como o Upanishads, tem aumentado. A maior parte dos hindus das classes mais instruídas parece acreditar no Upanishads, aceitando o mundo como uma manifestação de Brahaman. O interesse pelas formas menos abstractas do culto religioso tem declinado entre estas classes e por vezes estas são executadas mais como costumes sociais do que actividades puramente religiosas. Contudo, uma grande maioria de hindus economicamente desfavorecidos aproxima-se de Deus através de simples métodos tradicionais usando os caminhos da devoção (bahkti) e actuação (karma) em vez do caminho do conhecimento (jnãna). E é precisamente a continuação destes métodos que é responsável pela falsa crença, de certo modo comum no Ocidente, de que o Hinduísmo é uma religião politeísta. Se a doutrina de Brahman não for entendida, este é um erro fácil de cometer, pois no Hinduísmo popular Deus é adorado em diferentes formas, embora não seja esquecido que Ele é UM. Uma ideia que não tem sido apenas expressa nas escrituras e textos eruditos, mas cuja verdade é aceite pela maioria dos devotos mais simples, o que em parte justifica a unidade na diversidade da sãdhanã (prática espiritual) indiana. Isto é o que Rajjab queria dizer quando há quatrocentos anos cantou: «a adoração de diferentes seitas, que são como muitos pequenos riachos, movem-se para encontrar Deus, que é como o Oceano.»

1 - K.M.Sen, ‘Hinduism’
2 - Fritjof Capra, ‘The Tao of Physics’
3 - K.M.Sen, ‘Hinduism’

 

Budismo

«O Budismo tem sido, por muitos séculos, a tradição espiritual dominante na maior parte da Ásia, incluindo os países da Indochina, como o Sri lanka, Nepal, Tibet, China, Koreia e Japão. Assim como o Hinduísmo na Índia, tem tido uma grande influência na vida intelectual, cultural e artística destes países. Contudo, de modo diferente do Hinduísmo, o Budismo remete-se a um único fundador, Siddartha Gautama, o chamado Buda “histórico”, que viveu na Índia em meados do séc.VI A.C. durante o extraordinário período que viu o nascimento de tantos génios espirituais e filosóficos: Confúcio e Lao Tzu na China, Zoroastro na Pérsia, Pitágoras e Heráclito na Grécia.

Se o sabor do Hinduísmo é mitológico e ritualista, o do Budismo é definitivamente psicológico. Buda não estava interessado em satisfazer a curiosidade humana acerca da origem do mundo, a natureza da Divindade ou questões semelhantes. Ele estava interessado exclusivamente na situação humana, no sofrimento e frustrações do ser humano. A sua doutrina, portanto, não era metafísica; constituía antes uma psicoterapia. Ele apontou a origem das frustrações humanas e a maneira de as ultrapassar, retomando para este fim os conceitos tradicionais indianos de ilusão (maya), accção (karma), salvação (nirvana), etc., dando-lhes uma relevante interpretação psicológica, fresca e dinâmica.

Como acontece sempre no misticismo oriental, o intelecto é visto meramente como um meio de preparar o caminho para a experiência mística directa, a que os budistas chamam o “despertar”. A essência desta experiência é passar para além do mundo das distinções e oposições intelectuais, para alcançar o mundo impensável (acyntia), onde a realidade surge como “semelhança” não dividida e não diferenciada.

Buda não desenvolveu a sua doutrina num sistema filosófico consistente, mas olhou-a como um meio de atingir a iluminação. As suas afirmações acerca do mundo resumiam-se ao realce que dava à impermanência de todas as “coisas”. Ele insistia na libertação de uma autoridade espiritual, incluindo a sua, dizendo que a ele só competia mostrar o caminho para o Budismo, e que dizia respeito unicamente a cada indivíduo seguir este caminho até ao fim através dos seu próprio esforço.

Nagarjuna, o maior filósofo intelectual pertencente à escola Mahayana, especulando sobre “impermanência”, afirma que a natureza essencial da realidade é o vazio, mas ele está longe de o interpretar no sentido niilista. O que se pretende dizer com o vazio é apenas que todos os conceitos acerca da realidade formados pela mente humana são, em última análise, vazios. Realidade ou Vazio, em si mesmo, não é um estado correspondente ao nada, mas a própria fonte de toda a vida e a essência de todas as formas.

Estes pontos de vista da escola Mayana reflectem o seu lado intelectual e especulativo, contudo, complementarmente, existe também a consciência religiosa budista que envolve fé, amor e compaixão.

A verdadeira sabedoria iluminada (bodhi) é vista na escola Mayana como sendo composta dos dois elementos que D.T. chamou “os dois pilares que suportam o grande edifício do Budismo”. São eles “prajna”, que é a sabedoria transcendental ou inteligência intuitiva, e “karuna”, que quer dizer amor ou compaixão.

A culminância do pensamento Budista tem sido atingida, de acordo com vários autores, na chamada escola Avatamsaka que é baseada numa escritura (sutra) com o mesmo nome, e cujo tema central é a unidade e inter-relação de todas as coisas e de todos os acontecimentos.»(1)

«Mas se aqui reside a culminância do pensamento budista, a filosofia Zen é, então, a apoteose do Budismo. Mais do que qualquer outra escola do misticismo oriental, a escola Zen está convencida de que as palavras nunca podem expressar a verdade definitiva. É natural que esta convicção tenha sido herdada do Taoísmo. Nas palavras de Tao Tê Ching “o Tao que pode ser expresso por palavras não é o Tao eterno, o nome que pode ser definido não é o nome imutável. Aquele que fala não sabe; aquele que sabe não fala.”

O propósito do Zen é passar para além do intelecto. O intelecto é, em si mesmo, um dispositivo ou um meio, mas Zen é o caminho para a iluminação directa. O intelecto é um instrumento desenvolvido para o uso do conhecimento, mas somente os sentidos e a intuição adquirem conhecimento em primeira mão.

Qual é a finalidade do Zen? A resposta é Satori, o termo Zen para “Iluminação”. A Iluminação de Buda é o âmago e objectivo do Budismo, e Satori é “Dyana” (Zen), Iluminação. Uma vez que Satori está para além do intelecto - o único que pode definir e descrever- não se pode definir Satori. É essa condição da consciência onde o pêndulo dos Opostos consegue repousar, onde os dois lados da mesma moeda são igualmente avaliados e igualmente vistos. Só o silêncio o pode descrever: o silêncio do místico, do santo, do artista em presença de grande beleza ou do amante ou do poeta quando as cadeias do espaço e do tempo se quebram. É o plano onde o Todo é visto como tal, ocupando as suas partes as devidas proporções. É o antegosto do Momento Absoluto, da Consciência Cósmica, da condição na qual “Eu e o Meu Pai somos Um”.»(2)

1 - Fritjof Capra, 'The Tao of Physics'
2 - Christmas Humphreys, 'Buddhism'   

 

Taoísmo

«Taoísmo é o termo usado pelo mundo ocidental para referir um dos maiores movimentos do pensamento chinês. Mas, ao contrário do Confucionismo, não tem um ensino sistemático ou credo, nem pode ser transformado num conjunto de regras a seguir. Em primeiro lugar é uma religião cósmica, consistindo no estudo do Universo e no lugar e função do homem, de todas as criaturas e fenómenos dentro dele. A doutrina do Tao existiu provavelmente antes de Lao Tzu, o reputado fundador do Taoísmo.

O Tao é o mistério derradeiro,“aquele do qual as palavras se desviam”; aquele que ultrapassa todas as definições e contingências e todo o pensamento finito. No entanto, embora o Tao não possa ser expresso em palavras, o silêncio também é inadequado. “Ele não pode ser transmitido pela palavra ou pelo silêncio. A sua natureza transcendental talvez possa ser apreendida nesse estado que não é palavra nem silêncio.” Daqui se depreende que o Taoísmo é uma religião puramente metafísica e mística. Outras religiões têm os seus aspectos místicos; o Taoísmo é misticismo.

“O Tao é mais a passagem do que o Caminho” - escreve Okakuro Kazuko. É o espírito da Mudança Cósmica - o desenvolvimento eterno que volta sobre si mesmo para produzir novas formas. É o princípio de toda a energia, sem ser energia, mas apenas uma das suas manifestações. É o eterno princípio de toda a vida, mas que nenhuma vida pode expressar, e todos os corpos e formas materiais não são senão as suas vestes momentâneas.

Todos os escritos e alegorias Taoístas põem em evidência a unidade de toda a criação; a humanidade e todas as coisas que vivem são manifestações fragmentadas do Todo. No mundo das aparências elas parecem levar uma vida separada, mas isto é ilusório, na realidade eles são membros ou orgãos do mesmo corpo, assim como cada corpo é composto por várias partes. No estado perfeito e primordial havia uma sociabilidade mútua entre todas as coisas. Tradicionalmente, isto foi conseguido nos primeiros tempos da Idade de Ouro quando os homens e os animais falavam a mesma língua. Uma das características do Sábio é saber recapturar este estado e comunicar naturalmente com todas as coisas vivas.

Em nenhuma circunstância o Tao pode ser considerado ou usado como “Deus”; este termo é demasiado limitado, demasiado restrito e de qualquer modo não permissível, uma vez que o Taoísmo é uma religião não-teísta. No Taoísmo não há um Criador. É a operação do Tao que faz brotar uma Criação espontânea através da interacção dos princípios “Yin-Yang”. O Princípio Supremo nunca foi formalizado, e o Confucionismo popular nos seus templos não tinha qualquer imagem, conservando antes a atmosfera do pensamento abstracto do adepto; mas enquanto o Confucionismo desenvolveu um código rígido de propriedades éticas e sociais, o Taoísmo estava completamente livre de qualquer dogma ou códigos sistemáticos de conduta ou aprendizagem. No Taoísmo a ênfase é colocada na situação existencial. O Caminho é o Caminho da Vida, não uma escola de Pensamento, e só pode ser entendido se for vivido, o que explica a pouca quantidade de material escrito deixado pelos primeiros Taoístas.

Há quem encontre uma certa semelhança entre o Taoísmo e o Hinduísmo e, de facto, houve uma tradição que dizia que Lao Tzu tinha viajado até à Índia e ainda mais longe. Há certamente um forte sabor Bramânico nas doutrinas Taoístas de não violência e no princípio criativo de alegria no trabalho no Universo.

Os Upanishads ensinam que o esforço só se pode tornar eficaz através da alegria. A alegria é o resultado de se viver de acordo com o Tao. A violência é uma reacção infantil e impossível para uma pessoa com cultura e maturidade. É sempre sintomática de uma falta de controle e marca o fim da dignidade e respeito humano, seja ela manifestada por um acto de agressão, destruição, roubo ou uma explosão de cólera ou ainda por impaciência de palavras ou pensamentos, todos surgindo de violência tanto do corpo como do espírito. A guerra é considerada a degradação última do Homem. O incitamento às armas, a mais baixa forma de virtude. Prémios e castigos, a mais baixa forma de educação. Cerimónias e leis, a mais baixa forma de governo.

Uma vez identificados ou unidos com o resto da criação, a violência torna-se tanto absurda como impossível pois que, nessa altura, compreende-se que ferir ou fazer mal a quem quer que seja é infligir esse dano sobre si próprio e quem, a não ser um psicopata, faria isso? Assim também, qualquer violência contra a Natureza recai ultimamente sobre o explorador ou “conquistador” da Natureza.

A violência é essencialmente desequilibrada e, como tal, acentua inevitavelmente as qualidades que geram mais violência. A agressão só pode gerar agressão e provoca muitas vezes uma resposta violenta e perigosa. O mesmo se aplica à violência de emoções e convicções a qual conduz a perseguições e por isso fortalece a oposição. As seitas religiosas que tentaram colocar uma ênfase total e desequilibrada num único aspecto, em vez de aceitar a vida na sua totalidade, produziram os seus opostos. E o que deveria ser amor tornou-se ódio e luta.

O Taoísmo não tem nenhuma doutrina do pecado. O pecado é, para o Taoísta, mais uma violação da harmonia do Universo do que qualquer transgressão de uma ordem divina e, como tal, cria desarmonia e, portanto, desassossego no indivíduo em particular e, como consequência, na sociedade em geral. O que nas religiões teístas é uma obrigação de submissão à vontade de Deus, no Taoísmo significa uma cooperação com a harmonia do Universo. A lei e ordem fundamental do Tao governam o Universo inteiro e é a isto que o Homem tem de se ajustar se quiser preencher as suas potencialidades e desempenhar a sua parte na manutenção da harmonia da ordem cósmica. O mundo dos animais e das plantas adapta-se “naturalmente” pelo instinto; só o Homem escolhe manter ou destruir o equilíbrio. A ignorância está na raíz de todo o mal-estar moral do Homem; ela significa a falta e conhecimento e de compreensão da sua verdadeira natureza e da sua identidade com o Tao.

Uma vez que o pecado é considerado mais como uma ignorância do que desobediência à ordem divina, o Homem é aliviado do sentimento de culpa que tanto atormenta o espírito ocidental. A maturidade e totalidade só é alcançada pela aceitação e reconciliação de todos os opostos, luz e trevas, bem e mal, vida e morte. Estar “para além da vida e da morte” é a característica do Sábio. O Homem que ora é descrito como o Homem Perfeito, o Homem Verdadeiro, aquele que alcançou a “Grande Unidade”.

Paradoxalmente o Tao nada faz, mas executa todas as coisas. Ele próprio sem forma, é a origem de todas as formas; é imutável, mas no mundo da mudança ele está difundido em toda a parte. Ele é o eterno paradoxo do Nada e do Tudo.»

J.C.Cooper, 'Taoism, the Way of the Mystic'

 

Judaísmo

«Foi Abraão que quebrou a idolatria e se virou para o serviço do único Deus que ele reconheceu como o Criador do céu e da terra. Crenças e tendências monoteístas já existiam antes de Abraão surgir. Mas estas pouco tinham em comum com o monoteísmo de Abraão. Foi a Abraão que Deus se revelou como YHWH (O Senhor) e mais tarde a Moisés como “Eu Sou Aquele que Sou”.

A história começa com a criação do mundo por Deus e pela formação do Homem à Sua imagem. Contudo, este processo criativo não cessou quando o mundo e o Homem foram feitos, porque aquilo que tinha sido criado tinha de ser alimentado e desenvolvido. Foi essa a tarefa que Deus confiou ao Homem.

A base desta cooperação criativa é a obediência ao Criador, que se deve expressar na obediência à lei moral. Esta lei moral divide-se em duas categorias: Justiça, que diz respeito ao reconhecimento dos direitos humanos, e Rectidão, que dá relevo à aceitação dos deveres.

O primeiro preceito da lei de Justiça foi comunicado à humanidade através de Noé, quando, depois do Dilúvio, Deus fez um pacto com ele, em que impunha o respeito pela vida humana. Justiça, no entanto, mesmo no seu sentido mais lato, não é senão o aspecto negativo da lei moral. Justiça é regulamentadora e não criativa. Criatividade só entra em plena actividade tanto no homem como na Divindade quando é movida por Rectidão. Esta foi a verdade que Abraão experimentou. E, como consequência, Deus fez uma aliança com ele dando-lhe direito a si e aos seus descendentes de servirem como instrumentos para dar a conhecer à humanidade “os Caminhos do Senhor, praticando a justiça e a rectidão”, e deste modo desempenharem o serviço universal para o qual ele e a sua semente tinham sido destinados.

Foi em confirmação da Aliança com Abraão, com todas as suas implicações que viria a ser feita posteriormente a Aliança de Deus com Israel no Monte Sinai, através de Moisés e dos Dez Mandamentos.

Embora o Decálogo indicasse o alcance da “missão sacerdotal” de Israel ele não fornecia, no entanto, os deveres específicos e obrigações que se impunham ao povo como “nação santa”. Estas foram desenvolvidas numa série de revelações a Moisés que ele transmitiu ao povo e que, incorporando o Decálogo, finalmente se tornou a Torah, vulgarmente conhecido como a Lei, da qual o Pentateuco é o registo escrito.

O Talmude, por sua vez, é a história escrita em Hebreu ou Aramaico da interpretação bíblica, do estabelecimento dos regulamentos e do acrescentamento dos conselhos práticos e sábios que os líderes intelectuais e religiosos do povo Judeu ensinaram por um período de quase mil anos.

Interligada com a doutrina judaica da criação existe a doutrina da actividade providencial de Deus que preserva o mundo que Ele chamou à existência.  

No Judaísmo o Deus da Justiça é o Deus da Misericórdia (Amor), uno e inseparável. Além disto, o Judaísmo acentua a Imanência, Omnipresença, Transcendência, Omnisciência e Omnipotência Divinas. Imanente e Omnipresente porque a Sua Providência se estende sobre toda a Criação. Transcendente porque é puro espírito. Omnisciente porque conhece os actos e pensamentos mais secretos do Homem. Omnipresente e Omnisciente porque nada poderá frustrar a realização definitiva do Seu Objectivo, embora para o cumprimento desse objectivo seja necessária a cooperação do Homem.

Desenvolvendo a ideia bíblica do homem como co-operador de Deus, o Talmude concebe o homem como tendo sido escolhido como seu “parceiro” para o acabamento da Criação. E não foi apenas chamado para esta grande tarefa com fins materiais, mas também seleccionado como um agente especial para a realização de um objectivo que transcende as fronteiras físicas do universo, embora seja através do domínio físico que esse objectivo e possa realizar.

A ideia de acabamento da Criação está associado à visão do “Reino de Deus”, a ser anunciado pelo Messias. O Messias será a figura central dominante de uma era que testemunhará o reino da rectidão na terra, uma rectidão que trará paz universal e extrema abundância de coisas para uma vida recta, sem retirar a necessidade de sacrifícios em nome de ideais cada vez mais vastos. Mas o Messias na doutrina judaica não é um ser sobrenatural, nem um ser divino tendo uma comparticipação no perdão dos pecados; muito menos deve ser confundido com Deus. Quando muito o Messias é um líder mortal que terá influência na total reabilitação de Israel na sua antiga pátria e, através de um Israel restaurado, traga a regeneração moral e espiritual de toda a humanidade, tornando toda a humanidade merecedora do Reino. Então, sim, o Reino do Senhor será universal.

No seu contexto Messiânico e de realização terrena o Reino de Deus não é mais do que a preparação para a consumação do Reino num mundo supra - histórico e sobrenatural que há-de vir, um mundo que na linguagem rabínica “nenhum ouvido ouviu ou olho viu” (Is 64,3). 

A esta ordem supra-histórica e sobrenatural do Reino estão associadas as doutrinas da Ressurreição dos mortos e o universal Dia do Julgamento, quando o fim de todos os caminhos de Deus for conhecido e a consumação plena dos seus objectivos se realizar.

A crença na realização do propósito divino neste contexto supra-histórico e sobrenatural é partilhado por outras religiões; mas o que é distinto no Judaísmo é a insistência de que a consumação no Além está condicionada à realização no contexto histórico e social da vida diária.

Diferindo de outros credos, o Judaísmo recusa admitir o dualismo que opõe o “terrestre” ao “celeste”, o “temporal” ao “eterno”. Pelo contrário, o terrestre e o celeste estão em harmoniosa relação um com o outro, sendo o último olhado como resultado e desenvolvimento do primeiro.

O Judaísmo nega a existência do pecado original. É certo que a ideia de que o pecado de Adão trouxe a morte a toda a humanidade não é desconhecida na doutrina judaica, mas refere-se invariavelmente à morte física, e isto não deve confundir-se com a morte espiritual de que a doutrina cristã diz ninguém poder ser salvo senão através da fé no Salvador. Portanto, o homem pode alcançar a sua própria redenção pela penitência, sendo encorajado que o próprio Deus está sempre pronto, na abundância do Seu Amor, a receber o pecador penitente e a purificá-lo de toda a iniquidade.

Evidência de temas místicos, tanto de carácter prático como especulativo, são encontrados com abundância na literatura Talmúdica. As especulações místicas do Talmude estão centradas principalmente no “Trabalho da Criação” (Maaseh Beresshith) descrito no primeiro capítulo do Génesis, e no “Carro Divino” (Maaseh Merkabah) do relato da visão de Ezequiel. O primeiro deu origem a especulações cosmológicas e cosmogónicas, e o último desempenhou uma parte importante nas especulações sobre os mistérios e atributos da Divindade.

O trabalho místico mais importante de determinado período é, de longe, o “Livro da Criação” (Sepher Yetzirah) que, como o nome indica, se debruça sobre os problemas de cosmologia e cosmogonia. Nele há a fusão do misticismo e filosofia que formam os elementos constituintes da “Kabbalh” (“Tradição”).

Linguagem e Número são a verdadeira chave na doutrina do Sepher Yetzirah, os quais, em conjunto, são considerados os instrumentos pelos quais o Cosmos em toda a sua variedade infinita de combinações e manifestações foi chamada à existência por Deus.»

Isidore Epstein, 'Judaism'

 

Cristianismo

«Cristianismo é a religião de que Jesus Cristo é, simultaneamente, a origem e o objecto, o princípio e o fim. Não se trata de pura doutrina, ou de um movimento cuja autoria se deve a Cristo. Ele próprio está no centro dessa doutrina e da correspondente atitude religiosa.

Jesus veio para revelar Deus, o Deus que tem poder soberano no mundo. Veio para nos dizer o que Deus pensa de nós e quer de nós. Veio para proclamar o que Deus espera fazer por nós. Veio, sobretudo, para anunciar redenção e graça e revelar uma nova criação.

Jesus não veio resolver os problemas que o próprio Homem pode e deve resolver. Ele veio para que todos os homens tivessem Nele um amigo, um irmão que faz a paz e favorece a reconciliação.

O que é particularmente notável na sua pregação é a sua insistência de que todos que O querem seguir não devem odiar ninguém, nem pagar o mal com o mal. De facto, Ele foi mais longe ainda, pedindo que amássemos os nossos inimigos. O que Ele queria, acima de tudo, era dar esperança a todos os homens.»(1)

«Tem sido sugerido que Buda também fez uma exigência imperativa sobre o homem total. Mas o Buda dificilmente pode ser considerado divindade no sentido transcendente. O primeiro objectivo de adesão ao Caminho apontado por Buda é realmente antropocêntrico, ou seja, consiste na realização da nossa própria beatitude. Não é teocêntrico, isto é, não incide sobre a glória de Deus. Isto inverte a ordem das coisas. Não é uma questão se se deve preferir o Budismo ou o Cristianismo. O que acontece é que representam duas maneiras distintas de encarar a Realidade. Para Jesus, Amor é a última palavra na natureza da Realidade, enquanto Buda, como disse Rénan, se preocupa mais com o “pensamento puro”.

Há, no entanto, entre a vida de Cristo e Buda um certo paralelismo. A morte de Buda, por exemplo, corresponde à transfiguração de Cristo. A vida terrena de Buda termina neste ponto, mas é precisamente aqui que a vida de Jesus começa - o Seu sofrimento, morte e ressurreição. A diferença entre Buda e Cristo está na necessidade que exigiu que a vida de Cristo continuasse para além da de Buda. Jesus não morreu fisicamente no momento da Transfiguração, quando a luz cósmica brilhou através dele. Nesse momento ele é um Buda. Mas nesse mesmo momento ele entra num estágio que se expressa no mais alto grau de iniciação. Ele sofre e morre. O elemento terrestre desaparece. Mas o elemento espiritual, a luz cósmica não. Segue-se a Sua Ressurreição. Ele é revelado aos seus seguidores como Cristo. Buda, no momento da sua Transfiguração, flui para a vida abençoada do Espírito Universal. Jesus Cristo desperta o Espírito Universal uma vez mais, mas numa forma humana, numa existência presente.»(2)

«O Cristianismo proveio do Judaísmo. Logo, não é de admirar se encontrarmos implantados, tanto no Judaísmo como no Cristianismo, ideias místicas que são propriedade comum da vida espiritual Grega e Egípcia.»(3)

«Enquanto as religiões pagãs são percursoras do Cristianismo a um nível natural, o Judaísmo é-o já num plano sobrenatural. Contudo, o Judaísmo não é ainda a consumação religiosa. Só com a vinda de Cristo a história religiosa atinge o definitivo, pois o Cristianismo vem precisamente integrar e prolongar aquilo que o Judaísmo tem de essencial.

O livro sagrado dos cristãos é a Bíblia. Ele é um documento de uma história santa, e o que é notável é que entre todos os livros sagrados, o dos cristãos é o único que narra uma história e não se limita apenas a uma exposição de doutrina. Assim, o cristão tem plena consciência de viver em plena história ou antes, num mundo em que Deus não cessa de agir e intervir.

O Cristianismo afirma que só esta acção de Deus pode salvar o Homem: quer dizer que não há para o Homem, salvação senão em Jesus.»(4)

«Se examinarmos as religiões populares encontramos várias concepções de espiritualidade; mas se, em qualquer dos casos, recuarmos até à profunda sabedoria dos sacerdotes, que parece constituir o núcleo central de todas elas, encontramos concordância por toda a parte. Platão sabe que ele próprio está de acordo com os sacerdotes do Egipto quando tenta representar a essência da sabedoria grega através da sua visão filosófica do Universo. Diz-se que Pitágoras viajou pelo Egipto e pela Índia e foi instruído pelos sábios desses países. Pensadores que viveram nos primeiros tempos do Cristianismo encontraram tanta concordância entre os ensinamentos de Platão e o profundo significado dos escritos mosaicos que chamaram a Platão um Moisés usando a língua Ática.

Assim, a ciência dos antigos mistérios existiu por toda a parte. No Judaísmo ela adquiriu a forma que tinha que assumir se viesse a tornar-se uma religião mundial. O Judaísmo esperava o Messias. Não admira, pois, que quando a personalidade de um iniciado singular apareceu, os Judeus não o conhecessem senão como o Messias. Na realidade, esta circunstância esclarece o facto de que aquilo que tinha sido um assunto individual em relação aos Mistérios se tornasse um assunto de toda a Nação. A religião judaica tinha sido desde o início uma religião nacional. O povo Judeu considerava-se um organismo. O seu Jeová era o Deus de toda a Nação. Por isso, se o filho deste Deus viesse a nascer, ele deveria ser o redentor da nação inteira.

Vemos, deste modo, que era dentro da religião judaica que existia um solo no qual um iniciado de tipo único se poderia desenvolver. Ele deveria levar para o mundo aquilo que o eleito tinha experimentado nos Templos dos Mistérios. Tinha que estar disposto a assumir em si próprio, através da sua personalidade, de forma a servir de intermediário entre si e a sua comunidade, aquilo que o Culto dos Mistérios tinha previamente trazido àqueles que tomaram parte deles. Certamente ele não poderia dar de imediato a toda a comunidade as experiências dos Mistérios, nem ele desejava fazê-lo. Apenas desejava dar a todos a certeza da verdade contemplada nos Mistérios. Ele queria fazer com que a vida, que circulava dentro dos Mistérios, viesse a circular através da evolução histórica da humanidade e, deste modo, elevasse a humanidade a um mais alto grau de existência. Ele queria implantar nos corações dos homens, de forma inabalável, sob a forma de fé, a certeza de que o divino realmente existe. E mostrar que o Reino de Deus não depende de cerimónias exteriores, mas existe dentro de nós.

Se o Verbo tinha de se tornar carne, Ele deveria repetir o processo cósmico numa existência corporal. Tinha de se submeter a um facto real, um facto que fosse válido para toda a humanidade. O que tinha ocorrido anteriormente como um processo nos Mistérios tornou-se, através do Cristianismo, um facto histórico. Logo, o Cristianismo não era só a realização de tudo aquilo que fora predito pelos profetas judeus, como também a verdade que tinha sido prefigurada nos Mistérios.

A Cruz do Gólgota é o “culto do Mistério da Antiguidade condensada num facto”. A cruz é encontrada, pela primeira vez, nas cosmogonias antigas. No início do Cristianismo encontramo-la dentro de um acontecimento que passaria a ser válido para toda a humanidade. É deste ponto de vista que o elemento místico no Cristianismo pode ser compreendido. O Cristianismo como um facto místico é um marco na evolução humana; e são os acontecimentos dos Mistérios, com os seus efeitos consequentes, que servem de preparação para este facto místico.

O único Mistério, o Mistério protótipo, o Mistério Cristão, deveria assim substituir os muitos Mistérios da antiguidade. Jesus, no qual o Verbo se fez carne, tornar-se-ia o Iniciador de toda a humanidade, e esta humanidade passaria a ser a sua própria comunidade de místicos - não uma separação de eleitos, mas o elo de ligação entre todos.»(5)

1 - Ladislaus Boros , 'The Cosmic Christ'
2 - A.Bouquet, 'Comparative Religions'
3 - Rufolf Steiner, 'Christianity as a Mystical Fact'
4 - Extraído de um caderno universitário
5 - Rufolf Steiner, 'Christianity as a Mystical Fact'

 

Islamismo

Os árabes são um povo semita, e o semita não é um monoteísta natural como se supôs cerca de meados do século XIX. Ele é um animista. No século VII D.C. os árabes ainda eram politeístas na expressão das suas crenças religiosas. (…)»(1)

«Ninguém sabe ao certo quando a Pedra Negra caiu do céu sobre o Deserto Árabe. Diodorus Silicus, o Grego, menciona-a na sua história universal, escrita no século que precede a Cristo. (...) Muitos povos vieram depois contemplar o prodígio e em torno da pedra cresceu uma cidade. E tão preciosa se tornou esta pedra, tanto religiosa como economicamente, que os seus respeitados e prudentes guardiães decidiram protegê-la.

Para a mentalidade matemática dos árabes daquele tempo a perfeição era representada por um cubo. Por isso a casa que construíram, perto de uma antiga fonte sagrada, para abrigar a sua pedra enviada do céu, chamaram eles “Caaba”, ou Cubo.

Existe uma outra tradição árabe que dá uma explicação diferente para a origem da Caaba. Diz ela que, quando o patriarca hebreu Abraão, a pedido da sua ciumenta mulher Sara, expulsou para o deserto a sua concubina Hagar e o seu filho Ismael, estes vagaram por muito tempo até chegarem ao vale de Meca, onde, por se acharem a morrer de sede, um anjo lhes revelou a fonte de Zem-Zem. Então, enquanto Hagar e o rapaz se debruçavam na fonte, a Pedra Negra caiu dos céus ao pé de Ismael, e foi-lhe então prometido que seus filhos se tornariam um dia mais poderosos dos que os de Isaac, filho de Sara. O próprio Abraão, assim conta a tradição, veio posteriormente ajudar Ismael a construir a Caaba.»(2)

«Maomé - o fundador do Islamismo- nasceu cerca do ano 570 D.C.

Durante as suas viagens como mercador e mesmo na sua terra, Maomé encontrou em contacto com judeus e cristãos, aprendendo com eles as histórias contidas nos seus livros sagrados. Admirou Abraão, Moisés e Jesus, embora não compreendesse a teologia do Judaísmo ou Cristianismo, ou a diferença entre elas. É mesmo de duvidar que Maomé tenha lido qualquer coisa na Bíblia ou lido e escrito qualquer coisa até então, já que se chamava a si mesmo o “profeta iletrado”. Tinha, no entanto, boa memória e recordava-se das tradições orais do judeu, cristão e árabe pagão, com suave imparcialidade e limitada diferenciação.

Sob o estímulo da atmosfera íntima e amigável de um grupo de discípulos, Maomé desenvolveu a sua mensagem, que resumiu nesta frase: “Não há senão um Deus que é Alá ; e Maomé é o Seu profeta”.

Maomé parece ter identificado Alá com Jeová e feito eco do mandamento mosaico “não terás outro Deus que não Eu”.

A recusa dos judeus em aceitarem o que Maomé considerava a pura religião de Abraão,  levou-o a mudar a “Kiblah”, ou direcção da prece, de Jerusalém para Meca.

A sua mensagem caiu sobre o panteísmo idólatra de Meca como uma espada da verdade. Denunciou os ídolos como destituídos de valor. A única realidade era Alá, o único dever, submissão a Alá.

A palavra árabe que significa submissão eram “islam”, e Maomé tanto a incutiu no espírito dos seus ouvintes que a própria religião por ele fundada tomou o nome de Islamismo.

A interpretação comum ocidental da filosofia do Islamismo é falsa: ela não quer dizer mera submissão por necessidade, a resignação fatalista em face do inevitável. A verdadeira doutrina cifrava-se em: o que tem que acontecer acontece, de conformidade com a vontade de Alá. Por conseguinte tudo está bem.

Maomé procurou de toda a maneira tornar fácil a religião. Não sobrecarregou o povo com deveres prescritos, deixando-lhes simplesmente o ambíguo Alcorão e os cinco deveres principais do verdadeiro muçulmano:

 «Como muitas outras religiões, em particular o Judaísmo e Hinduísmo, o Islão põe grande ênfase na distinção entre revelação e inspiração. O Islão ensina que o Corão foi transmitido a Maomé por intermédio do arcanjo Gabriel e isso situa-se, portanto, ao nível de pura revelação, tendo o estatuto sacramental de discurso divino. O Profeta recebeu a revelação através dos vinte e três anos em que profetizou. De acordo com a tradição muçulmana, Maomé ouviu a primeira dessa revelações na gruta de Hirã, perto de Meca, com uma voz a comandar-lhe:“Recita, em nome de Deus”. E continuou a receber a revelação divina até à sua morte, em 632 D.C.»(3)

«Para os Muçulmanos a religião está centrada em “Wahy” (revelação).

Neste sentido, o Islamismo é a “última das revelações universais à humanidade” e, como tal, uma “reafirmação da verdade primordial”, da Verdade que sempre foi e será, nomeadamente a Unidade do Princípio e completa dependência e, de facto, insignificância de toda a contingência, perante a ofuscante Magestade d’Aquele que fundamentalmente é, Sózinho.

Como asserção final da revelação primordial, o Islamismo é também um meio para a redescoberta do carácter sagrado da primeira revelação de Deus, que é a própria ordem criada. O Islamismo contém o meio de tornar possível que o Homem veja as formas da Natureza uma vez mais como o “vestiggi-Dei” e a multiplicidade como os muitos reflexos da Unidade que é, simultaneamente, o principio e o fim da ordem da multiplicidade.

Há no seio do universo espiritual do Islamismo uma dimensão que bem poderia ser chamada “Pitagorismo -Abraónico”, isto é, uma maneira de ver os números e as formas como “chaves para a estrutura do cosmos” e como “símbolos do mundo protótipo”, um mundo que também é visto como a criação de Deus no sentido do monoteísmo Abraónico. É esta possibilidade dentro do universo intelectual do Islamismo, e não qualquer influência externa, que permitiu ao Islamismo desenvolver uma filosofia da Matemática semelhante à tradição Pitagórico-Platónica da Antiguidade, mas num universo totalmente sagrado, liberto de nacionalismos e racionalismos que finalmente sufocaram e destruíram a dimensão esotérica da intelectualidade grega. É também este elemento nascido dentro da estrutura do Islamismo que permitiu a criação de uma arte sagrada de natureza essencialmente geométrica e de ciências da natureza que procuram penetrar a própria estrutura da existência física, não dividindo a molécula e o átomo, mas pela ascensão ao mundo protótipo das matemáticas para descobrir as estruturas principais que estão reflectidas dentro do próprio coração da matéria.»(4)

1 - A. C. Bouquet, ‘Comparative Religion’
2 - Charles Potter, ‘História das Religiões’
3 - Martin Lings e Yasin Hamid Safadi, ‘The Qu´rán’
4 - Keih Critchlow, ‘Islamic Patterns’ (citação do prefácio de Seyyed Hossein Nasr)


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